Inteligência artificialProduct Management20 de out. de 202623 min

    Como criar um dataset para um agente de IA: Guia prático

    Só um dataset permite medir um agente de IA: um conjunto de casos com o comportamento esperado em cada um. Sem esse conjunto, o time ajusta prompts no olho e descobre os erros pela reclamação do cliente.

    André Tranchezzi

    André Tranchezzi

    Principal Product Manager

    Como criar um dataset para um agente de IA: Guia prático

    Só um dataset permite medir um agente de IA: um conjunto de casos com o comportamento esperado em cada um. Sem esse conjunto, o time ajusta prompts no olho e descobre os erros pela reclamação do cliente. Este artigo mostra como o product manager define, monta, rotula e mantém esse dataset.

    O texto serve a PMs e heads de produto que lançam ou mantêm agentes em produção. Todos os exemplos usam o mesmo caso: o agente de suporte de uma empresa de software B2B. Esse agente responde dúvidas, consulta faturas, emite segunda via de boleto, abre chamados e transfere a conversa para um atendente.

    O caminho tem oito etapas: contrato do agente, formato do registro, fontes de dados, cobertura, rotulagem, avaliação, tamanho e ciclo de vida. No fim, o artigo traz papéis, erros comuns e um plano de 30 dias.

    O que é um dataset de agente

    Um dataset de agente reúne situações reais ou realistas, cada uma com o comportamento que o agente deve ter. Ele mede ações, e não só o texto da resposta.

    Três tipos de dataset

    Tipo

    Para que serve

    Quem usa

    Quando o PM precisa dele

    Avaliação (eval set)

    Medir se o agente cumpre a tarefa

    Produto e engenharia

    Sempre, antes do primeiro lançamento

    Exemplos no prompt (few-shot)

    Mostrar ao modelo o formato e o tom esperados

    Engenharia de prompt

    Quando o agente erra formato ou tom

    Treino (fine-tuning)

    Ajustar os pesos do modelo

    Time de ML

    Raro: a maioria dos agentes usa modelo de terceiros sem ajuste de pesos

    Este artigo trata do dataset de avaliação. É o que o PM controla e o que decide se uma versão vai para produção.

    O que muda quando o sistema é um agente

    Um chatbot recebe uma pergunta e devolve um texto. Um agente recebe um objetivo, decide passos, chama ferramentas, lê os resultados e só então responde.

    Por isso o dataset de agente registra quatro elementos que um dataset de chatbot ignora:

    • Estado inicial: dados do cliente, histórico da conversa e permissões.

    • Ferramentas disponíveis: o que o agente pode chamar e com quais parâmetros.

    • Trajetória: quais ferramentas o agente deve chamar, com quais dados, e quais ele não pode chamar.

    • Efeito no sistema: o chamado aberto, o boleto emitido, a conversa transferida.

    O agente pode escrever uma resposta correta e errar a ação. Exemplo: ele diz "abri seu chamado", mas nunca chamou a ferramenta abrir_chamado. Um dataset que só compara textos não detecta esse erro.

    Por que o dataset é uma decisão de produto

    Quem escreve a resposta esperada define o que o produto faz. O dataset funciona como uma especificação executável: cada caso é um requisito que o sistema testa a cada versão.

    Três decisões ficam com o PM:

    1. O que conta como sucesso. Em uma cobrança contestada, o agente resolve sozinho ou transfere para um atendente? A resposta vira regra no dataset.

    2. Quais erros são inaceitáveis. Emitir boleto para o CNPJ errado pesa mais do que responder com tom formal. O dataset separa esses casos e dá peso diferente a cada um.

    3. Qual nota libera uma versão. Sem um número de corte, cada release vira um debate de opinião.

    Sem dataset, o time compara versões lendo meia dúzia de conversas. Esse método não detecta regressão: uma mudança de prompt que melhora as respostas sobre faturas pode piorar as de cancelamento sem ninguém notar.

    Antes de coletar: defina o contrato do agente

    O primeiro entregável é um contrato de uma página, e não o dataset. O contrato diz o que o agente faz, com quais ferramentas e como o time mede cada tarefa. Sem ele, cada rotulador decide a resposta certa do próprio jeito.

    Escopo

    Liste as tarefas que o agente executa e as que ele não executa. Para cada tarefa fora do escopo, defina o comportamento: recusar, pedir informação ou transferir.

    No agente de suporte, renegociar dívida fica fora do escopo. O comportamento esperado é transferir para o time financeiro com um resumo da conversa.

    Ferramentas e permissões

    Liste cada ferramenta, os parâmetros obrigatórios e as condições de uso. Exemplo: emitir_segunda_via exige CNPJ validado e fatura em aberto. O agente não pode chamar essa ferramenta para uma fatura já paga.

    Critérios de sucesso por tarefa

    Tarefa

    Ação esperada

    Resultado aceitável

    Resultado inaceitável

    Segunda via de boleto

    consultar_fatura e emitir_segunda_via

    Link do boleto da fatura pedida

    Boleto de outra fatura ou de outro CNPJ

    Dúvida sobre cobrança

    consultar_fatura e explicar os itens

    Explicação que bate com os itens da fatura

    Valor que não existe na fatura

    Pedido de cancelamento

    transferir_para_humano com o motivo

    Transferência com resumo

    Promessa de cancelar sem transferir

    Falha técnica

    abrir_chamado com categoria e descrição

    Chamado na categoria certa

    Resposta genérica sem chamado aberto

    Essa tabela vira a base do guia de rotulagem. Cada linha gera pelo menos uma categoria no dataset.

    Anatomia de um caso

    Cada caso do dataset é um registro com campos fixos. Campos fixos permitem rodar a avaliação de forma automática e filtrar o resultado por categoria.

    Campo

    O que guarda

    Exemplo

    id

    Identificador único que nunca muda

    sup-0142

    entrada

    Mensagem do usuário ou a conversa até aquele ponto

    "Preciso da segunda via do boleto de outubro"

    contexto

    Dados que o agente vê no início

    Cliente ativo, duas faturas em aberto

    ferramentas

    Ferramentas disponíveis no caso

    consultar_fatura, emitir_segunda_via

    trajetória esperada

    Chamadas obrigatórias e chamadas proibidas

    emitir_segunda_via com fatura_id 8812

    resposta de referência

    Um texto que atende ao critério

    "Pronto. Segue o link da segunda via de outubro."

    critérios

    Regras que o avaliador responde com sim ou não

    Emitiu a fatura 8812? Enviou o link?

    metadados

    Categoria, dificuldade, origem e versão

    segunda_via, média, produção, v1.2

    O registro completo do caso sup-0142 fica assim:

    {
      "id": "sup-0142",
      "categoria": "segunda_via",
      "dificuldade": "media",
      "origem": "producao_anonimizada",
      "versao_dataset": "1.2",
      "entrada": "Oi, preciso da segunda via do boleto de outubro.",
      "contexto": {
        "cliente_id": "c-0091",
        "status_cliente": "ativo",
        "faturas_em_aberto": [
          {"fatura_id": "8807", "mes": "2026-09", "valor": 1890.00},
          {"fatura_id": "8812", "mes": "2026-10", "valor": 1890.00}
        ]
      },
      "ferramentas_disponiveis": [
        "consultar_fatura", "emitir_segunda_via",
        "abrir_chamado", "transferir_para_humano"
      ],
      "trajetoria_esperada": {
        "obrigatorias": [
          {"ferramenta": "emitir_segunda_via", "parametros": {"fatura_id": "8812"}}
        ],
        "proibidas": ["transferir_para_humano"]
      },
      "resposta_referencia": "Pronto. Segue o link da segunda via do boleto de outubro.",
      "criterios": [
        "Emite a segunda via da fatura 8812",
        "Não emite boleto da fatura 8807",
        "Envia o link na resposta"
      ]
    }

    O contexto traz duas faturas com o mesmo valor de propósito. O caso testa se o agente escolhe a fatura pelo mês pedido, e não pela primeira da lista.

    Duas regras para montar o registro:

    • A trajetória esperada lista chamadas obrigatórias e proibidas, e não a sequência completa de passos.

    • Cada critério é uma frase que o avaliador responde com sim ou não. "Resposta clara" não serve; "envia o link na resposta" serve.

    De onde vêm os dados

    Use quatro fontes, cada uma com um papel. A base vem da produção; as outras três cobrem o que a produção ainda não mostra.

    Fonte

    Realismo

    Custo

    Cobre casos raros

    Principal risco

    Produção

    Alto

    Baixo

    Pouco

    Dado pessoal sem anonimização

    Especialistas

    Médio

    Alto: horas de especialista

    Muito

    Viés da memória de quem escreve

    Sintéticos

    Baixo a médio

    Baixo

    Médio

    Casos repetitivos e limpos demais

    Adversariais

    Baixo

    Médio

    Muito, em segurança

    Lista que envelhece diante de ataques novos

    Logs de produção

    Conversas reais trazem a linguagem do cliente: erros de digitação, pedidos ambíguos, duas perguntas na mesma mensagem. Antes do lançamento, use o canal humano atual como fonte: tickets, chats e e-mails do suporte.

    Regra: anonimize antes de copiar para o dataset. Troque nome, CPF, CNPJ, e-mail e telefone por valores fictícios no mesmo formato.

    Especialistas de domínio

    Atendentes experientes e analistas conhecem os casos raros que custam caro. Peça a cada especialista dez casos que ele já viu dar errado, com a resposta certa. Esses casos entram na fatia crítica do dataset.

    Dados sintéticos

    Um LLM gera variações de um caso real: outra forma de escrever, outro valor, outro mês. Isso amplia a cobertura sem depender de volume de produção.

    Casos sintéticos tendem a soar parecidos entre si e mais limpos que a linguagem real. Três regras de uso:

    • Todo caso sintético parte de um caso real, chamado de semente.

    • Uma pessoa revisa cada caso antes de ele entrar no dataset.

    • O campo origem marca o caso como sintético, para o time comparar o desempenho por origem.

    Casos adversariais

    Inclua tentativas de tirar o agente das regras. Exemplos: o usuário pede a fatura de outro CNPJ, manda o agente ignorar as instruções ou pede um desconto que não existe. Em todos, o comportamento esperado é recusar ou transferir.

    Cobertura: quais casos entram

    O dataset precisa cobrir as situações que o agente encontra em produção, na proporção certa. A matriz de cobertura mostra onde faltam casos.

    Matriz de cobertura

    Cruze a intenção do usuário com o tipo de dificuldade. Cada célula precisa de casos suficientes para gerar uma métrica própria.

    Intenção

    Simples

    Ambígua

    Com dado faltando

    Fora da política

    Segunda via

    12

    6

    4

    3

    Dúvida de cobrança

    10

    8

    3

    2

    Cancelamento

    6

    4

    0

    4

    Falha técnica

    8

    5

    5

    1

    Fora do escopo

    5

    3

    2

    4

    No exemplo, cancelamento com dado faltando tem zero casos. É o cenário em que o cliente pede para cancelar sem dizer qual contrato, e ninguém testou o que o agente faz. Falha técnica fora da política tem um caso só, o que não sustenta uma métrica.

    Duas fatias: representativa e crítica

    Separe o dataset em duas fatias com perguntas diferentes.

    • Fatia representativa: segue a distribuição real de uso. Se 40% das conversas pedem segunda via, 40% dos casos são de segunda via. Ela responde: qual taxa de sucesso o cliente vai sentir?

    • Fatia crítica: concentra casos de alto risco, como dado financeiro, cancelamento e tentativa de fraude. Ela responde: o agente comete algum erro que a empresa não aceita?

    Reporte as duas fatias em separado. Uma média única esconde a falha rara e cara.

    Casos em que o agente não deve agir

    Inclua casos em que a ação certa é parar. Três comportamentos precisam de casos próprios:

    • Pedir informação: o cliente pede um boleto sem dizer o mês, e há três faturas em aberto.

    • Recusar: o cliente pede dados de outra empresa.

    • Transferir: o cliente pede algo fora do escopo, como renegociação de dívida.

    Sem esses casos, o dataset premia o agente que sempre age, mesmo quando deveria parar.

    Rotulagem: quem define a resposta certa

    O rótulo é a resposta certa de cada caso. Ele exige um guia escrito, mais de um rotulador e uma medida de concordância entre eles.

    Guia de rotulagem

    O guia transforma o contrato do agente em regras de decisão. Para cada categoria, ele traz o que define sucesso, o que define falha, três exemplos de cada e os casos de fronteira.

    Use escalas de dois ou três níveis, cada nível com uma definição que duas pessoas apliquem do mesmo jeito:

    Nota

    Definição

    Exemplo no caso sup-0142

    2 — Sucesso

    Ação certa e resposta completa

    Emite a fatura 8812 e envia o link

    1 — Parcial

    Ação certa, resposta com falha

    Emite a fatura 8812, mas não envia o link

    0 — Falha

    Ação errada ou ausente

    Emite a fatura 8807, ou diz que emitiu sem chamar a ferramenta

    Concordância entre rotuladores

    Peça a duas pessoas que rotulem os mesmos 50 casos sem ver a nota uma da outra. Calcule a concordância com o kappa de Cohen, que desconta o acerto por acaso.

    Use como régua inicial: kappa abaixo de 0,6 indica critério ambíguo. Nesse caso, reúna os rotuladores, discuta cada divergência e reescreva o guia antes de rotular o resto.

    Quem escreveu o prompt do agente não deve ser o único rotulador. Essa pessoa tende a escrever respostas de referência no formato que o agente já produz, e o dataset passa a medir o próprio prompt.

    Trajetória ou resultado

    Um agente pode chegar ao mesmo resultado por caminhos diferentes. Se o rótulo exige a sequência exata de ferramentas, o dataset reprova caminhos válidos.

    Regra: rotule o resultado final e os passos críticos. Passo crítico é o que muda algo no sistema ou carrega risco: emitir boleto, abrir chamado, transferir. Consultas de leitura podem variar de ordem sem afetar a nota.

    Como avaliar o agente com o dataset

    A avaliação roda o agente em todos os casos e compara o que ele fez com o rótulo. O resultado sai em três grupos de métricas: resultado, trajetória e operação.

    Grupo

    Métrica

    Definição

    Exemplo de meta

    Resultado

    Taxa de sucesso

    % de casos com nota 2

    ≥ 85% na fatia representativa

    Resultado

    Erros críticos

    Casos da fatia crítica com ação proibida

    Zero para liberar release

    Resultado

    Transferência correta

    % dos casos de transferência em que o agente transferiu

    ≥ 95%

    Trajetória

    Precisão de ferramenta

    % das chamadas obrigatórias feitas com os parâmetros certos

    ≥ 95%

    Trajetória

    Ação declarada e não feita

    % de respostas que afirmam uma ação que o agente não executou

    0%

    Trajetória

    Passos extras

    Média de chamadas além do necessário por caso

    ≤ 1

    Operação

    Custo por caso

    Gasto com o modelo por caso, em reais

    Conforme a margem do produto

    Operação

    Latência

    Tempo até a resposta final, no percentil 95

    ≤ 10 s

    As metas da tabela são exemplos. Defina as suas pelo custo do erro em cada tarefa.

    Três formas de dar nota

    • Checagem por regra: um script compara chamadas e parâmetros com a trajetória esperada. Use em tudo que tem resposta exata.

    • LLM como juiz: um modelo lê a resposta e aplica o critério escrito. Use para clareza, tom e completude da explicação.

    • Revisão humana: uma pessoa avalia uma amostra. Use para calibrar o juiz e para casos novos.

    Calibre o juiz antes de confiar nele

    Rode o LLM juiz nos mesmos casos que os humanos rotularam e calcule o kappa entre juiz e humanos. Se o valor ficar abaixo da concordância entre os próprios humanos, ajuste o prompt do juiz antes de usar a nota dele em decisão de release.

    Compare versões, não números soltos

    Uma nota isolada diz pouco. Rode a versão atual e a candidata no mesmo dataset e compare por categoria. A candidata só sai se melhorar a métrica-alvo e não piorar nenhuma categoria da fatia crítica.

    Tamanho do dataset: quanto basta

    Comece com 50 a 100 casos rotulados com critério e cresça a partir das falhas reais. O tamanho depende da precisão que cada métrica exige.

    Toda taxa medida tem margem de erro. Com 95% de confiança, a margem aproximada segue esta conta, em que p é a taxa medida e n é o número de casos:

    \text{margem} = 1{,}96 \times \sqrt{\frac{p\,(1-p)}{n}}

    Casos na categoria

    Margem com taxa de 50%

    Margem com taxa de 85%

    30

    ± 17,9 pp

    ± 12,8 pp

    50

    ± 13,9 pp

    ± 9,9 pp

    100

    ± 9,8 pp

    ± 7,0 pp

    200

    ± 6,9 pp

    ± 4,9 pp

    400

    ± 4,9 pp

    ± 3,5 pp

    1.000

    ± 3,1 pp

    ± 2,2 pp

    Três consequências práticas:

    • Diferenças pequenas podem ser ruído. Uma melhora de 5 pontos medida em 100 casos fica dentro da margem. Para decidir, compare as versões caso a caso: conte quantos casos a candidata acerta e a atual erra, e o inverso. O teste de McNemar faz essa conta.

    • A margem vale por categoria. Para medir cancelamento com ± 10 pontos, essa categoria precisa de cerca de 100 casos, e não o dataset inteiro.

    • A fatia crítica segue outra lógica. Ali a meta é zero erro, e cada caso funciona como teste de regressão. O número de casos acompanha a lista de riscos, e não a estatística.

    O ciclo de vida do dataset

    O dataset é um ativo com versão, dono e rotina de atualização. Um dataset congelado mede o produto do trimestre passado.

    Versionamento

    Dê número de versão ao dataset e registre cada mudança: casos novos, casos removidos e rótulos alterados. Toda nota de avaliação cita a versão do dataset que a gerou. Sem isso, o time compara notas de testes diferentes.

    Produção alimenta o dataset

    Cada falha em produção vira candidata a caso. O fluxo: o cliente avalia mal a conversa ou um atendente desfaz a ação do agente; alguém faz a triagem; o caso aprovado ganha rótulo e entra na próxima versão.

    Defina uma meta de fluxo. Exemplo: toda semana, o time faz a triagem de 20 conversas com nota baixa.

    Contaminação e conjunto reservado

    Quando o time ajusta o prompt olhando os mesmos casos várias vezes, o agente melhora no dataset e não no uso real. Separe 20% dos casos como conjunto reservado. Ninguém consulta esses casos durante o ajuste; eles só rodam antes da release.

    Sinal de alerta: a nota no conjunto de trabalho sobe e a nota no reservado fica parada. Nesse caso, o time ajusta o agente para a prova, e não para o cliente.

    Revisão a cada mudança de regra

    Regras de negócio mudam: preço, política de cancelamento, ferramentas novas. Cada mudança no contrato do agente dispara a revisão dos casos afetados. Casos com regra antiga saem do dataset ou ganham rótulo novo.

    Governança, privacidade e LGPD

    O dataset que nasce da produção contém dados de clientes. Aplique a ele as mesmas regras de acesso e retenção do banco de dados de produção.

    • Anonimização antes da entrada: troque nome, CPF, CNPJ, e-mail, telefone e endereço por valores fictícios no mesmo formato. O formato mantido evita que o agente reaja a um dado com cara de falso.

    • Acesso restrito: só quem rotula e avalia acessa o dataset. Registre quem acessou e quando.

    • Base legal e retenção: defina com o jurídico e o encarregado de dados (DPO) a base legal do uso e o prazo de guarda dos casos.

    • Fornecedores externos: não envie casos com dado pessoal para ferramentas de geração sintética ou de rotulagem sem contrato que cubra esse uso.

    • Registro de origem: todo caso informa de onde veio — produção, especialista, sintético ou adversarial — e a data de entrada.

    Estas práticas são operacionais. A interpretação da LGPD para o seu caso cabe ao time jurídico.

    Papéis e responsabilidades

    O dataset precisa de um dono. Em produto, o dono é o PM do agente, porque o dataset decide o que o produto entrega.

    Papel

    Decide

    Executa

    Product manager

    Contrato do agente, metas de release, prioridade das lacunas da matriz

    Matriz de cobertura, triagem semanal com o suporte

    Especialista de domínio

    Resposta certa nos casos de fronteira

    Casos críticos e respostas de referência

    Engenharia ou ML

    Formato do registro e ferramenta de avaliação

    Execução da avaliação, juiz automático, versionamento

    QA

    Critério de regressão

    Casos adversariais e testes de regressão

    Jurídico e privacidade

    Regras de anonimização e retenção

    Revisão de contratos com fornecedores

    Operação de suporte

    Quais falhas viram candidatas a caso

    Envio dos sinais de falha da produção

    Erros comuns

    Cada erro abaixo tem um sintoma que o PM consegue observar e uma correção.

    Erro

    Sintoma

    Correção

    Só casos fáceis

    A nota sobe e as reclamações continuam

    Matriz de cobertura e fatia crítica

    Rótulo escrito por quem fez o prompt

    As respostas de referência copiam o estilo do agente

    Especialista rotula; duas pessoas rotulam a mesma amostra

    Sintético sem revisão

    O agente vai bem no teste e falha na linguagem real

    Semente real, revisão humana e campo de origem

    Média única

    Taxa geral de 88% com 40% de falha em cancelamento

    Reportar por categoria e por fatia

    Avaliar só o texto final

    O agente diz que abriu o chamado e não abriu

    Avaliar trajetória e efeito no sistema

    Dataset congelado

    A nota fica estável enquanto as regras do negócio mudam

    Versionamento e triagem semanal das falhas

    Juiz automático sem calibração

    A nota do juiz diverge do que os especialistas dizem

    Comparar juiz e humanos antes de usar a nota

    Plano de 30 dias para começar

    Em quatro semanas, o time sai do zero para um dataset v1.0 com linha de base medida e critério de release escrito.

    1. Semana 1 — Contrato e taxonomia

      • Escreva o contrato do agente em uma página.

      • Liste as intenções e monte a matriz de cobertura vazia.

      • Pronto quando: especialista e engenharia aprovam o contrato.

    2. Semana 2 — Coleta

      • Separe 150 conversas reais do canal atual e anonimize.

      • Peça dez casos críticos a cada especialista.

      • Escreva a primeira versão do guia de rotulagem.

      • Pronto quando: 100 casos preenchem as células principais da matriz.

    3. Semana 3 — Rotulagem e concordância

      • Duas pessoas rotulam os mesmos 50 casos.

      • Calcule o kappa e reescreva o guia nos pontos de divergência.

      • Rotule o restante e separe 20% como conjunto reservado.

      • Pronto quando: kappa igual ou acima de 0,6 e dataset v1.0 publicado.

    4. Semana 4 — Primeira avaliação

      • Rode o agente atual no dataset e registre a linha de base por categoria.

      • Calibre o LLM juiz contra os rótulos humanos.

      • Defina com o time as metas de release e a regra de erro crítico zero.

      • Pronto quando: a próxima release tem critério de liberação escrito.

    Conclusão: o que o dataset muda na estratégia de produto

    O dataset é a peça de produto que define como o agente se comporta. Cinco pontos para PMs e heads de produto levarem para o planejamento:

    1. O dataset é a especificação. Cada caso com critério escrito é um requisito testado a cada versão. O PM que escreve os casos define o comportamento do agente com mais precisão do que um PRD em texto corrido.

    2. O modelo muda, o dataset fica. Os fornecedores lançam modelos novos várias vezes por ano. Com um dataset próprio, o time testa um modelo novo em horas e decide a troca com números por categoria, e não com uma demonstração.

    3. O dataset é a parte que o concorrente não copia. Qualquer empresa contrata os mesmos modelos. Os casos rotulados do seu domínio, com as regras do seu negócio e as falhas que seus clientes já viveram, só existem dentro da sua empresa.

    4. Critério de release substitui debate. Com metas por categoria e a regra de erro crítico zero, a decisão de lançar deixa de depender de quem fala mais alto na reunião.

    5. O head de produto trata o dataset como ativo de portfólio. Ele precisa de dono, de capacity no planejamento, de roadmap próprio e de métricas de saúde: casos por categoria, idade média dos casos, concordância entre rotuladores e casos novos vindos da produção por semana.

    O primeiro passo cabe em uma semana: escrever o contrato do agente e rotular os primeiros 50 casos com duas pessoas. Cem casos com critério escrito e rótulo conferido orientam mais decisões do que dez mil casos sem critério.

    Continue lendo