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    Group Product ManagerTon (Grupo Stone)10 min

    Onboarding Conta Ton

    Neste case, compartilho como discovery em campo, dados em tempo real e decisões difíceis de produto levaram a um aumento de conversão de 30% para 95%, criando um onboarding que respeita o contexto real de microempreendedores e transforma fricção em orientação.

    Onboarding Conta Ton

    Criar um onboarding de KYC do zero nunca é simples. Fazer isso em um ambiente de alto risco regulatório, com usuários de baixa maturidade digital, celulares básicos e múltiplos parceiros externos? Aí o desafio muda de escala.

    Quando começamos a Conta Digital do Ton, o cenário era claro: apenas 30% das pessoas conseguiam concluir o processo. O restante se perdia em um fluxo longo, pouco didático e frágil, exatamente o oposto do que uma conta digital deveria ser.

    Nossa ambição era simples de dizer e difícil de executar: transformar um processo burocrático e crítico em uma experiência fluida, intuitiva e resiliente. Um onboarding que se explicasse sozinho. Que funcionasse em qualquer dispositivo. E que mantivesse, em cada etapa, o rigor exigido por antifraude e compliance regulatório.

    A solução começou longe das telas. Mergulhamos no comportamento de clientes reais, observando onde surgiam dúvidas, frustrações e abandonos. Instrumentamos cada etapa do funil e deixamos os dados guiarem as decisões. A partir disso, construímos um motor de biometria inteligente, desenhado para se adaptar à realidade do usuário, e não o contrário.

    O resultado foi uma virada completa: a conversão saltou de 30% para 95%. Tudo isso sem concessões em segurança ou conformidade regulatória.

    Mais do que melhorar números, esse projeto provou um princípio fundamental: quando tecnologia, dados e empatia trabalham juntos, até os processos mais complexos podem se tornar simples.

    Problema de negócio e oportunidade

    • Baixa conversão no onboarding impedia a ativação da conta digital

    • Alto custo operacional com suporte e reprocessamento manual

    • Fricção inicial comprometia confiança e LTV do cliente

    Oportunidade: transformar o onboarding em uma vantagem competitiva, acelerando ativação, reduzindo CAC indireto e habilitando novos produtos financeiros.

    Por que esse projeto era estratégico

    • Onboarding é o gateway de toda a jornada financeira

    • Sem KYC aprovado → sem conta → sem monetização

    • Impacto direto em crescimento, risco, compliance e experiência

    2. Contexto e desafios

    Situação inicial

    • Onboarding inexistente para conta digital

    • Dependência de múltiplos parceiros de KYC

    • Fluxo técnico complexo, pouco observável

    • Conversão média: 30%

    Principais dores dos usuários

    • Dificuldade para tirar selfie válida

    • Documentos antigos, cópias ou mal conservados

    • Linguagem técnica e mensagens genéricas de erro

    • Celulares simples, câmeras de baixa qualidade

    • Baixa alfabetização digital

    Limitações técnicas e organizacionais

    • APIs externas com erros pouco descritivos

    • Respostas técnicas não orientadas ao usuário final

    • Time lidando com alto volume de falhas sem visibilidade clara

    • Pressão regulatória (KYC, AML, Bacen)

    Riscos envolvidos

    • Fraude e abertura indevida de contas

    • Falso positivo (bloquear cliente legítimo)

    • Experiência ruim no primeiro contato com a marca

    • Escalabilidade do suporte humano

    3. Objetivos e métricas de sucesso

    Objetivos de negócio

    • Aumentar conversão do onboarding

    • Reduzir custo operacional de suporte

    • Manter compliance e antifraude

    Objetivos de produto

    • Criar um onboarding autoexplicativo

    • Reduzir falhas evitáveis

    • Tornar o fluxo observável e iterável

    KPIs principais

    • Conversão do onboarding: 30% → 95%

    • Tempo médio de onboarding

    • Erros por etapa

    • Falhas técnicas por parceiro

    • Taxa de reprocessamento

    • Tickets de suporte por onboarding

    4. Minha atuação como Product Manager

    Responsabilidades diretas

    • Desenho completo do fluxo KYC

    • Integração com parceiros externos

    • Definição de métricas e instrumentação

    • Liderança de discovery contínuo

    • Interface com risco, jurídico e engenharia

    • Acompanhamento diário via dashboards

    Decisões estratégicas

    • Priorizar clareza > velocidade

    • Tratar onboarding como produto, não feature

    • Criar observabilidade antes de escalar

    • Investir em mensagens educativas ao invés de apenas regras mais rígidas

    Frameworks e métodos utilizados

    • Discovery contínuo

    • JTBD (abrir conta para receber e usar dinheiro)

    • Funil AARRR adaptado ao onboarding

    • Prioritização por impacto × frequência

    • Scrum + Kanban (discovery e delivery em paralelo)

    Trade-offs importantes

    • Mais etapas explicativas vs. menos abandono

    • Customização do fluxo vs. custo técnico

    • Automatização vs. risco regulatório

    5. Time e stakeholders

    Estrutura do time

    • Engenharia mobile e backend

    • Design de produto

    • Dados

    • Risco e compliance

    • Atendimento e operações

    Stakeholders

    • Liderança de produto

    • Jurídico e regulatório

    • Parceiros de biometria

    • Atendimento ao cliente

    Comunicação e alinhamento

    • Rituais semanais

    • Dashboards compartilhados

    • Reviews com risco e jurídico

    • Feedback direto de clientes

    Conflitos e resolução

    • Risco queria mais bloqueios → dados mostraram falso negativo

    • Engenharia queria simplificar → testes mostraram impacto em conversão

    6. Processo de discovery e delivery

    Quando olhei para o onboarding KYC da Conta Digital do Ton, ficou claro que eu não estava diante de um “fluxo com bugs”. Eu estava diante de um problema de produto e de contexto humano: nosso usuário era um microempreendedor/autônomo que precisava abrir conta rápido, mas muitas vezes usava um celular simples, tinha pouca familiaridade com tecnologia e, em alguns casos, vivia em ambientes que tornavam selfie e documento “bons o suficiente” um desafio real.

    Meu objetivo no discovery foi responder três perguntas com evidência (não com opinião):

    1. Por que as pessoas falhavam? (comportamento + contexto)

    2. Onde exatamente elas falhavam? (funil + telemetria)

    3. Como “bom” deveria ser o nosso onboarding? (benchmark + competitividade)

    A partir disso, executei uma abordagem em três frentes: campo (clientes reais), dados (observabilidade) e mercado (benchmark).

    6.1) Campo: WhatsApp + clientes reais (qualitativo rápido e recorrente)

    Por que WhatsApp?

    Eu percebi que, se eu dependesse apenas de pesquisa formal, eu teria:

    • baixa velocidade de feedback

    • pouca proximidade com o “momento da dor”

    • muita perda de nuance (o problema acontece em segundos, no ambiente real do cliente)

    WhatsApp era onde esse público de fato vivia. Era o canal com menor fricção para eles e maior velocidade para nós.

    O que eu fiz

    1. Criei grupos de WhatsApp com early adopters (usuários que estavam tentando abrir a conta e topavam ajudar).

    2. Organizei o grupo com regras simples: “manda print/gravação de tela quando travar”, “conta onde você estava e o que tentou fazer” e “se puder, manda foto do ambiente (iluminação/fundo)”

    3. Fiz acompanhamento quase em tempo real. Em alguns momentos, isso significou atender cliente em domingo à noite, não por heroísmo, mas porque era o único jeito de capturar o problema no instante em que ele acontecia.

    Que tipo de evidência o WhatsApp trouxe

    • Prints das mensagens de erro (que geralmente eram técnicas ou genéricas)

    • Vídeos mostrando: como o cliente posicionava o documento, como ele tirava selfie (muito perto, muito longe, tremendo, com reflexo, etc.), Comentários espontâneos (“não sei o que fazer”, “tá pedindo de novo”, “já fiz 3x”)

    • Contexto: câmera ruim, iluminação fraca, fundo poluído, documento físico muito antigo

    A descoberta mais importante

    A grande virada foi entender que o onboarding não falhava apenas por “erro técnico”.
    Ele falhava porque o sistema exigia qualidade de entrada (selfie/documento) maior do que o contexto do cliente conseguia entregar, e ainda por cima não explicava como melhorar.

    Isso criou um princípio de produto que guiou o resto do projeto:

    “Se o cliente está errando, o produto precisa assumir que é nossa responsabilidade explicar como acertar.”

    6.2) Visitas presenciais: entendimento do “mundo real” (contexto que dado não mostra)

    Eu decidi visitar clientes porque percebi um risco clássico:
    o time desenha para um usuário “ideal” que não existe.

    O que eu observei nas visitas

    Clientes operando em ambientes difíceis:

    • balcão de loja, rua, feira, oficina

    • iluminação irregular

    • pouco tempo e paciência para “fazer direito”

    Documento:

    • guardado de qualquer jeito (dobrado, com reflexo, plastificado, gasto)

    Celulares:

    • básicos, câmeras simples, telas pequenas e baixo desempenho

    • Pressa e ansiedade: abrir conta era “um meio”, não um fim

    O que isso mudou no produto

    As visitas reforçaram que:

    • O fluxo precisava ser didático e tolerante, não apenas “seguro”.

    • Era essencial reduzir tentativas inúteis (“tente novamente”) e aumentar orientação (“faça assim”).

    • O onboarding precisava comunicar progresso e estado (“selfie ok, agora falta documento e análise”).

    Isso ajudou a transformar o onboarding em uma experiência mais “assistida”, sem depender de humano.

    6.3) Dados: observabilidade total do funil (quantitativo para decidir prioridade)

    Em paralelo ao qualitativo, eu montei uma operação de observabilidade do onboarding para responder:

    • Em qual etapa o usuário mais caía?

    • Quantas tentativas por etapa?

    • Quais erros vinham do app vs. dos parceiros?

    • Quais erros eram “recuperáveis” (UX) vs. “inevitáveis” (fraude/documento inválido)?

    Como fizemos

    • Criamos dashboards no Metabase para funil, conversão, tempo e quedas por etapa

    • Usamos Datadog para erros técnicos (timeouts, instabilidade, falhas de integração)

    • Eu acompanhava isso quase em tempo real para detectar regressões e “buracos” do fluxo

    O que os dados ajudaram a provar

    • Muitas quedas eram evitáveis com orientação e melhoria de feedback

    • Havia erros técnicos repetidos por parceiro e por step

    • O tempo de onboarding estava alto e aumentava com retrabalho

    Essa parte foi decisiva porque transformou feedbacks do WhatsApp e visitas em algo mensurável e priorizável.

    6.4) Mercado: benchmark competitivo (por que era urgente e qual era a barra)

    Além de entender nossos usuários, eu precisava entender uma coisa simples:

    “O que é bom nesse mercado? Estamos atrás? Quanto?”

    Então eu olhei para o mercado para formar uma referência de competitividade, principalmente em duas dimensões:

    (A) Tempo de onboarding (time-to-value)

    Quanto tempo o cliente leva, do “quero abrir conta” até “conta ativa”?

    • Se o concorrente entrega isso em minutos e nós em horas/dias → perdemos confiança e conversão

    • Para público de microempreendedor, tempo é valor

    (B) Conversão (eficiência do funil)

    Qual é a taxa de conclusão/ aprovação em players comparáveis?

    A intenção do benchmark não era copiar fluxo. Era entender:

    • a barra mínima de experiência

    • o quanto a fricção era um “problema nosso” vs. “normal do setor”

    Como eu usei isso no case

    O benchmark virou munição para:

    • justificar prioridade executiva (“não é perfumaria, é competitividade”)

    • definir metas realistas (e agressivas)

    • sustentar trade-offs com risco e engenharia

    Como tudo isso virou decisão de produto: a hipótese do Motor de Biometria

    Depois de WhatsApp + visitas + observabilidade + benchmark, eu consolidei uma hipótese central:

    Hipótese

    Se traduzirmos erros técnicos e falhas de validação em orientações claras e acionáveis, e mostrarmos status do fluxo em linguagem humana, então:

    • diminuímos repetição de tentativas

    • reduzimos abandono por frustração

    • aceleramos tempo total

    • aumentamos conversão mantendo rigor antifraude

    Essa hipótese foi o “porquê” do Motor de Biometria.

    E ela não nasceu de brainstorming: nasceu do campo.

    “Eu tratei o onboarding como um produto de alta complexidade humana, não como um formulário. O discovery em campo mostrou que o maior inimigo da conversão não era fraude, era falta de orientação.”

    7. Solução construída

    Descrição da solução

    Criação de um motor de biometria inteligente, intermediando APIs técnicas e traduzindo erros em orientações humanas e acionáveis.

    Principais funcionalidades

    • Tradução de erros técnicos para linguagem simples

    • Feedback imediato por etapa

    • Status claro do progresso

    • Reprocessamento orientado

    • Instrumentação completa do funil

    Diferenciais competitivos

    • UX adaptada ao contexto real do usuário

    • Redução drástica de erros evitáveis

    • Alta taxa de aprovação legítima

    • Escalabilidade sem aumento proporcional de suporte

    Arquitetura (alto nível)

    App → Motor de Biometria → Parceiros KYC → Camada de decisão → Feedback UX

    8. Resultados e impacto

    Resultados quantitativos

    • Conversão: 30% → 95%

    • Redução massiva de falhas técnicas

    • Menor volume de tickets

    • Onboarding mais rápido e previsível

    Resultados qualitativos

    • Clientes mais confiantes

    • Menos frustração

    • Melhor percepção da marca

    • Times mais orientados a dados

    Impacto geral

    • Negócio: mais contas ativas

    • Usuários: experiência justa e simples

    • Time: clareza, foco e aprendizado contínuo

    9. Aprendizados e próximos passos

    O que funcionou bem

    • Proximidade com clientes reais

    • Dados + empatia

    • Observabilidade desde o início

    O que faria diferente

    • Instrumentar ainda antes do MVP

    • Envolver suporte mais cedo

    • Testar linguagem com mais variações regionais

    Evoluções futuras

    • Personalização por perfil

    • Reuso do motor em outros fluxos regulatórios

    10. Conclusão

    No fim das contas, esse projeto me lembrou algo simples, mas fácil de esquecer: produto não acontece na tela, acontece na vida real das pessoas.

    O onboarding da conta digital do Ton não falhava porque as pessoas eram desatentas ou porque a tecnologia era ruim. Ele falhava porque estávamos pedindo demais de um contexto que não existia: celulares simples, pouca luz, pouco tempo, pouca paciência e zero vontade de “entender o sistema”.

    Resolver isso não passou por criar regras mais rígidas ou jogar mais inteligência artificial em cima do problema. Passou por ouvir de verdade, olhar dados com curiosidade (e não com ego), atender cliente fora do horário comercial, ir a campo e aceitar que, às vezes, a melhor decisão de produto é explicar melhor, e não complicar mais.

    O resultado foi um onboarding que deixou de ser um obstáculo e passou a ser um facilitador. A conversão saiu de 30% para 95%, mas o número mais importante não foi esse. Foi perceber que, quando você respeita o contexto do usuário, o produto começa a trabalhar a favor dele, e não contra.

    Se esse case prova alguma coisa, é que bons produtos financeiros para públicos simples exigem mais sofisticação de produto, não menos. E que Product Management, no fim do dia, é menos sobre frameworks bonitos e mais sobre estar disposto a fazer o trabalho que precisa ser feito, mesmo que isso inclua responder WhatsApp num domingo à noite.

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